«O homem é uma criança antiquíssima cuja origem e natureza suscitam as mais desencontradas e exigentes conjecturas. Umas vezes é um ser desfigurado, de uma beleza inerte e medonha à procura de identidade mas que muda frequentemente de caligrafia. Tem medo, é um efabulador alto e terrível. Capaz de inventar sob pseudónimo venenos absolutamente convicentes e seguros, pode estruturar sociedades polarizadas em campos repulsivos como são a riqueza e a miséria só porque uma e outra são conservadoras e impermeáveis à justiça, essa intrusa. Assim sustém o tempo com a ilusão de lhe sobreviver. É a isso que chama fatalidade, esperando, em seu nome, ser absolvido. Outras vezes é um demiurgo, um revisitador activo e inconsolável da “criação”. Neste caso é um prematuro, um rectificador da “natureza das coisas” que acha infinitamente perfectíveis.»
Fernando Gandra
[excerto do prefácio de A Noção de Cultura nas Ciências Sociais, de Denys Cuche]
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